Após parto em casa, jovem celebra primeiro Dia das Mães no Sul de MG

Samu deu orientação por telefone e bebê nasceu na sala de casal.
Com gravidez de risco, ela não pôde ser internada antes por falta de leito.


Depois de ter o filho no chão de casa, Marciele Cristina Graciano de Oliveira, de 19 anos, só pensa em aproveitar o Dia das Mães com o presente pelo qual tanto lutou. "Quero ser uma supermãe para ele - aquela que protege e cuida." Davi Lucas, seis dias completos neste domingo (10), nasceu na terça-feira (5) sob o telhado sem forro de uma humilde casa, recém-alugada no Bairro dos Vilelas, zona rural de Santa Rita do Sapucaí (MG).

"Ela estava mais forte do que eu", diz Lucas Maurício Teixeira, de 22 anos, imaginando a dor que a namorada sentiu durante o parto improvisado na sala. "Eu nem sei como consegui ajudar. Mas foi por Deus que tudo deu certo e ela e o nosso filho estão bem", comemora.
Santa Rita do Sapucaí, mãe, Dia das Mães, Marciele (Foto: Daniela Ayres/ G1)Mãe e filho receberam alta do hospital um dia
depois do parto (Foto: Daniela Ayres/ G1)


Gravidez de risco
Como tudo na vida do casal, o nascimento de Davi Lucas foi antecedido por uma série de contratempos. No dia 3 de maio, Marciele foi até a maternidade para ser internada, mas foi informada de que não havia leito disponível. Recebeu a orientação para retornar no dia 6 de maio e fazer novos exames. O médico que a atendeu acreditava que o bebê nasceria uma semana depois. O filho, no entanto, chegou mais cedo.

A gravidez de Marciele era de risco. Durante o pré-natal, ela descobriu que estava hipertensa e com diabetes gestacional. Aos sete meses de gestação, teve que fazer um acompanhamento específico para que seu bebê não fosse prematuro.

Na madrugada em que ele nasceu, a jovem e o namorado estavam na casa que fica a 6 km do Centro de Santa Rita do Sapucaí. No município, não há maternidade. É preciso superar outros 40 km de percurso para chegar à unidade de referência mais próxima, em Pouso Alegre (MG).
Santa Rita do Sapucaí, mãe, Dia das Mães, Marciele (Foto: Daniela Ayres/ G1)Morando na zona rural, casal teve dificuldades para conseguir socorro e Samu auxiliou por telefone
(Foto: Daniela Ayres/ G1)













A chegada de Davi
Mas quando as contrações pioraram por volta das 3h30 do dia 5 de maio e há duas horas a busca pelo apoio de parentes para seu transporte se mostravam infrutíferas, Marciele ligou para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). Dos instantes seguintes, ela pouco se lembra. A memória vem em flashes.
Parto durou 20 minutos. Samu orientou por telefone até a chegada da ambulância na zona rural de Santa Rita do Sapucaí.


"Eu sentei no chão, bem aqui [e mostra o cantinho da sala onde o filho nasceu]. Veio a dor, veio o choro, o medo de machucar o meu filho que ainda estava preso a mim, o meu bebê no colo, eu tentando amamentá-lo e depois, no hospital, ouvindo o meu amor dizer que o nosso menino estava bem", recorda.

Foi Lucas quem a auxiliou no parto. Ele relembra que, no dia, fazia bastante frio, mas que não houve tempo de forrar o chão para a namorada. Quando ela se sentou, entrou em trabalho de parto, o sinal de celular estava bastante ruim e a ligação para o Samu caía a todo momento.

Lucas fez o parto da namorada enquanto aguardava a chegada da ambulância em Santa Rita do Sapucaí, MG (Foto: Daniela Ayres/ G1)


"De repente, ele veio. Foi muito rápido. Eu olhei e vi meu filho no chão", relata. "Tive muito medo. Ele estava ali e eu só falava pra Marciele não se mexer porque poderia machucá-lo. Então o telefone tocou", disse sobre o instante em que conseguiu retomar contato com o serviço de atendimento médico.

"Eu disse que meu filho tinha nascido, que eu não sabia o que fazer e a moça me disse que eu precisava enrolar meu filho no pano mais limpo que tivesse na casa, que eu podia tocar nele, que a Marciele podia se sentar. Eu coloquei o menino no colo dela para amamentar e ela estava firme, apesar de todo o sangue. A moça também me orientou a amarrar o cordão umbilical e eu usei um fio dental, que era o que tinha. Tudo durou uns 20 minutos", calcula. Eram umas 5h quando a ambulância apareceu.
Santa Rita do Sapucaí, mãe, Dia das Mães, Marciele (Foto: Daniela Ayres/ G1)Marciele e Lucas superaram dificuldades sozinhos e chegaram a morar na rua durante a espera por Davi
(Foto: Daniela Ayres/ G1)


Falta de abrigo e comida ficou pra trás
Davi Lucas é um presente de Dia das Mães de 50 cm de altura e quase 3,5 kg de peso. Quase não chora. A sua tranquilidade e a aparência saudável simbolizam para a nova família a força que os uniu durante os nove meses de espera.

Ao descobrir a gravidez, Marciele não teve apoio da família. Sem trabalho, ela e o namorado tiveram que se virar sozinhos. A vida começou a melhorar dois meses atrás, depois que Lucas conseguiu um emprego como auxiliar técnico na área em que se especializou, a de eletrônica, e apareceu a oportunidade de alugar a casa em que moram por um valor que coubesse no orçamento.
Santa Rita do Sapucaí, mãe, Dia das Mães, Marciele (Foto: Daniela Ayres/ G1)Depois de gestação de risco, Marciele não esconde a felicidade em ver o filho saudável
(Foto: Daniela Ayres/ G1)


Para Lucas, a namorada é motivo de orgulho. "Foram muitas dificuldades, mas ela sempre foi o meu apoio. Nunca brigamos pela falta de dinheiro. A gente não pensava em ter um filho agora. Eu queria entrar para o Exército. Ela queria ser veterinária, pois ama cavalos. A nossa vida agora é a vida do nosso filho, mas nós vamos trabalhar para que esses planos sejam retomados, agora com o Davi", planeja.

"Foi o nosso amor que permitiu enfrentar isso", avalia Marciele. "Chegamos a ficar uma semana e meia na rua, dormindo em uma barraca de camping emprestada, porque não conseguíamos uma casa. Até fome nós passamos, mas, quando eu olho para o meu filho, eu tenho certeza de que valeu a pena. Para ser mãe, eu enfrentaria tudo de novo."
Santa Rita do Sapucaí, mãe, Dia das Mães, Marciele (Foto: Daniela Ayres/ G1)Davi Lucas completa 6 dias de vida neste domingo (10): presente de Dia das Mães para Marciele
(Foto: Daniela Ayres/ G1)

Fonte G1