A NOSSA MATA ATLÂNTICA




Diante de tantas ações previstas e levadas a efeito com relação ao meio ambiente e considerando a degradação de nossos principais mananciais, fiz uma releitura, neste fim de semana, da obra A ferro e fogo, do professor norte-americano Warren Dean, um notável estudo sobre a história e a devastação de Mata Atlântica. Sem dúvida é um grande livro de um grande escritor que nos deixou no ano de 1994, falecido em um trágico acidente no Chile. Dean já havia anteriormente trabalhado com temas nacionais e talvez seu maior legado para os estudos brasileiros tenha sido A industrialização de São Paulo, excelente obra sobre as raízes do desenvolvimento daquela cidade.

Na obra objeto deste artigo, Warren Dean visualiza muito mais do que a história de uma mata. Vai mais além. Mostra, com notável perfeição, aquilo que todos sabemos e teimam muitos em não reconhecer: a Mata Atlântica corre perigos seriíssimos pela devastação sistemática de seu ecossistema gerado na maior parte das vezes pelo descaso governamental. O livro mostra linhas carregadas de tristeza e este talvez seja o ponto principal da obra: a contestação que faz do mau aproveitamento da terra e da exploração indiscriminada da mesma.

É a narrativa da destruição de uma floresta que, conforme mesmo enfatiza, caiu nas mãos de uma elite ignorante, incapaz de perceber interesses coletivos e duradouros. O trabalho mostra a extensão daquilo que um governador da capitania de São Paulo, já no século XVIII, chamava de “engodo da mata virgem”.

Ao correr das linhas, e com muita propriedade, vai listando historicamente as sandices governamentais: no século XVI exportava-se pau-brasil em toras, não em tintura, o que seria muito mais lucrativo. Queimava-se a mata, mas se comprava potassa na Europa, mesmo sabendo-se que ela era um derivado das cinzas e assim por diante.

Outros exemplos nada dignificantes: no século XIX, José Bonifácio, o Patriarca da Independência, figura das mais proeminentes de nossa história, mandou arrancar os papos dos tucanos do museu de história natural para enfeitar o manto do imperador D. Pedro I. A nobreza de seu tempo importava mogno da Jamaica e se surpreendia ao ver que os europeus valorizavam o jacarandá. Charles Darwin que, em sua viagem de estudos, passou algumas semanas no Rio de Janeiro, foi tomado de surpresa ao ver que um dos seus anfitriões mandara derrubar uma árvore para retirar de seus galhos um macaquinho que acabara de caçar.

Na metade do século passado, a lenha e o carvão vegetal representavam 79% de toda a energia consumida no Brasil. Em 1992, só na região sudeste da Mata Atlântica, 269 hidrelétricas inundavam uma área equivalente à metade do Estado do Rio de Janeiro. Um terço dela estava desativado.

Aquilo que pode parecer asneira sempre foi produto de uma monocultura destinada a preservar o poder de latifundiários que recebiam sesmarias de 40 quilômetros quadrados e, quando as esgotavam, reivindicavam outras. Por outro lado, nessa grande devastação, Dean achou personagens heroicos como o conservacionista Augusto Ruschi, no Espírito Santo, defendendo a floresta, estudando os colibris e colecionando orquídeas.

Sem cometer o pieguismo de um romantismo ecológico, o que, convenhamos, está se tornando chato e cansativo, Dean termina seu livro com os pés na floresta destruída e os olhos na Amazônia: “o último serviço que a Mata Atlântica pode prestar, de modo trágico e desesperado, é demonstrar todas as terríveis consequências da destruição de seu imenso vizinho”. E, em tom de profecia, enfatiza que chegamos ao ponto de, egoisticamente, achar que não temos nada com isso e “quem viver depois que se arranje”. 

 * Membro do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais