Tudo que eu quero é ser ninguém na vida



Desde que eu me entendo por gente vejo as pessoas querendo ser alguém na vida. Foi por querer ser alguém na vida que o obstetra que fez meu parto se tornou médico. Não há nada errado em querer ser médico, ou mesmo ser médico, se não houvesse médico eu nem teria saído da barriga da minha mãe. O problema é querer ser alguém na vida. Querer ser alguém na vida é que nos impede de simplesmente sermos.

Quem quer ser alguém na vida projeta sua felicidade para o futuro. Este é o grande erro da humanidade desde que começou a perceber sua mente consciente. E como projeta sua felicidade para o futuro acaba não existindo. Porque o futuro não existe. O futuro é uma invenção da mente humana, uma fantasia. O único lugar que temos para viver é o agora.

Ora, se o único lugar que temos para viver é o agora, todo o querer ser alguém na vida cai por terra. Todo o querer cai por terra. E em vez de querermos ser alguém passamos a simplesmente ser. Este querer ser alguém que não se é, tem afastado cada homem sobre a terra da sua verdadeira essência, de seu eu superior, self, "Eu Sou", ou como você prefira chamar a realidade última de cada indivíduo. Tudo o que você precisa ser você já trás dentro de si, agora, neste exato momento.

Tudo isto relativiza a idéia de esperança. Só pode haver esperança em relação a um ponto futuro, se eu espero, espero alguma coisa que ainda não está aqui. E tudo que é de real valor nesta vida está aqui e agora e em nenhum outro lugar. No momento em que se condiciona a felicidade a algum elemento externo, algo fora de si mesmo, ela escapa. Tudo que se pode ser é. Não está inserido na dimensão temporal.

Este agora de que falamos é um espaço ínfimo. Ele está situado entre o instante imediatamente anterior e o instante imediatamente posterior. É uma quase nada. E é essa portinha mínima que precisamos atravessar para se alcançar toda a possibilidade de uma autêntica felicidade. Mas ninguém precisa fazer regime, para ultrapassar essa estreita porta. A única exigência é a atenção.

É preciso estarmos alertas, vigilantes, presentes. E essa atitude continuada que abre as portas do infinito em nossas vidas, O infinito não é uma abstração. No início é preciso um certo esforço para nos mantermos totalmente imersos no momento presente. Com a prática isto vai se tornando natural. Essa atenção continuada cessa o fluxo de pensamentos. São os pensamentos agitando nossas mentes que nos impede de vivenciarmos nossa luz interior.

A mente por si mesma não é algo negativo. A mente é um maravilhoso instrumento desde que colocada a serviço do homem, e não o homem a seu serviço. Uma vez cessado o fluxo de pensamentos temos acesso a nossa verdadeira natureza. Temos acesso ao que é . Sem disfarces. Sem máscaras. Sem ilusões. Voltamos para casa, enfim somos. E o que somos é muito mais semelhante a Ninguém do que a Alguém. As pessoas muito identificadas com o ego podem não reconhecê-lo. Ele pode passar despercebido em algumas rodinhas sociais. Mas está ali, uma paz, um conforto, uma Presença, algo muito difícil de ser descrito em palavras. Isto é o que os indianos costumam chamar de auto-realização. E que ao contrário do que se possa imaginar nem está muito distante. Está aqui. Está agora. A eternidade mora num átimo de segundo. Se você estiver atento, a felicidade sem motivos estará a seu alcance.

Antônio Augusto Lima
Psicólogo, Publicitário e Poeta