Euclides da Cunha em Campanha




Euclides da Cunha em Campanha

Poucos sabem dessa passagem curiosa do grande escritor pátrio Euclides da Cunha pela cidade de Campanha. Na realidade, em raríssimos livros está gravada com minúcias a estadia do autor de Os Sertões por terras sul mineiras. De fato isto se deu entre 1894 e 1895: Euclides fora designado pelo então presidente da República, o marechal Floriano Peixoto, para servir naquela cidade e ali chegou em 28 de março de 1894 na condição de engenheiro militar (1º tenente) que era, a fim de construir ou adaptar um quartel para abrigar o 8º Regimento de Cavalaria.
E qual o motivo para que Euclides para ali fosse enviado, considerando a qualidade e excelência da engenharia militar no estado de Minas Gerais? Na realidade, essa decisão foi tomada como uma espécie de exílio a ele imposto, com a finalidade velada de mantê-lo afastado das agitações da capital, pois a repercussão de um desentendimento que tivera com um senador do Ceará, João Cordeiro (que exigia a punição sumária dos envolvidos na Revolta da Armada), através de duas cartas publicadas na Gazeta de Notícias, em fevereiro de 1894, teria ocasionado a sua transferência para a Secretaria de Obras Militares, que se via empenhada, entre outras, na construção do quartel do 8º Regimento na cidade de Campanha.
Além disso, pesava também o temperamento polêmico de Euclides, fato não desconhecido das autoridades militares que se lembravam vivamente do episódio ocorrido na Escola Militar em 1888, quando, na visita do então Ministro da Guerra, Tomás Coelho, Euclides havia liderado uma insubordinação da tropa contra a presença daquela patente, insatisfeito com a monarquia: em vão tentou quebrar a sua baioneta e, não conseguindo, arremessou-a ao chão. Por esse episódio Euclides fora desligado do Exército e somente seria reincorporado em 1889. Euclides, efetivamente, era um homem predestinado a atos de grande desassombro ao longo de sua vida.
Assim é que, após o episódio com o senador João Cordeiro, foi enviado para Campanha e ali recebido com honras, convivendo com homens do naipe de João Luís Alves, que seria posteriormente ministro do Supremo Tribunal Federal e membro da Academia Brasileira de Letras; Leonel de Rezende Filho, que viria a ser ministro do Tribunal de Contas da União; Francisco Honório Brandão, médico conceituado no sul das Minas Gerais; Júlio Bueno, jornalista, professor e historiador; Brandão Filho, num grande orador campanhense. Passaria grande parte do dia na livraria dos irmãos Veiga, sobrinhos que eram de Evaristo da Veiga, filhos de Lourenço Xavier da Veiga, e Bernardo Saturnino da Veiga que fundou o Opinião Campanhense, nos moldes do Aurora Fluminense. O primeiro, por sinal, foi um dos que primeiro adquiriram terras na que hoje é a cidade de São Lourenço.
O Dr. Júlio Bueno, um companheiro de jogo de gamão, dizia que Euclides não gostava de acatar as regras do jogo, principalmente quando estava em desvantagem e, exaltado, sempre reclamava: “Eu não sou escravo de regrinhas de jogo, ouviu, meu caro doutor? Isto é mera convenção!” E o professor aceitava pelo prazer de tê-lo como parceiro assíduo, embora fosse muito resmungão. Esse mesmo professor obsequiou Euclides com muitos livros, dentre eles Géologie, flore, faune et climats du Brésil, de Emmanuel Liais que, adiante, seria citado várias vezes em sua obra máxima, Os Sertões.
É ainda o mesmo Dr. Bueno que, em artigo publicado em O Minas do Sul, de Campanha, em edição de 3 de março de 1953, falou sobre o prédio onde Euclides morou e começou a escrever os primeiros capítulos de Os Sertões, que no princípio não tinha esse título. Segundo ele, foi nessa mesma época que Euclides fizera a leitura do livro Teoria do Socialismo, de Oliveira Martins, com anotações de próprio punho datadas de Campanha, a nossa Tebaida (lugar de refúgio) Mineira, como se referia de São Paulo – já na condição de jornalista de O Estado de S. Paulo - ao seu amigo Francisco Honório Brandão.
Não restam dúvidas de que a paisagem campanhense tocou-lhe a veia poética ao escrever Catas, versos dedicados a Coelho Neto e inspirados nas escavações auríferas que circundavam a cidade. No seu livro maior, Euclides lembrou que a Mantiqueira parecia ter por missão levar até ao âmago de Minas Gerais as paisagens alpestres do litoral!

Que outros adorem vastas capitais
Aonde, deslumbrantes,
Da Indústria e da Ciência as triunfais
Vozes se erguem em mágico concerto;
Eu, não; eu prefiro antes
As catas desoladoras do deserto,
Cheias de sombra, de silêncio e paz...

Não invejo, porém, os que se vão
Buscando, mar em fora,
De outras terras a esplêndida visão...
Fazem-me mal as multidões ruidosas
E eu procuro, nesta hora,
Cidades que se ocultam majestosas
Na tristeza solene do sertão.

E ao ritmo de esplêndidas canções
Levantou-lhes os muros triunfantes
Heroica e sonhadora,
A coorte febril dos Bandeirantes,
Nas marchas triunfais pelos sertões.

Viajantes que rápidos passais
Pelas serras de Minas,
Vindos de fulgurantes capitais,
Evitai as necrópoles sagradas,
Passai longe das ruínas,
Passai longe das Catas desoladas
Cheias de sombra, de tristeza e paz...

Além disso, uma grande alegria estava destinada ao grande escritor: ali em Campanha nasceu-lhe outro filho, Euclides da Cunha Filho, o Quidinho, em 18 de julho de 1894, herdeiro que tivera com Ana Emília Ribeiro da Cunha e que teria a mesma sorte do pai, ou seja, morreu em duelo com o tenente Dilermando de Assis.
         Em sua passagem por Campanha, ainda que tenha sido curta, Euclides era extremamente considerado pelos intelectuais da cidade, assim é que foi aquele que discursou na chegada do primeiro trem em Campanha, em 11 de novembro de 1894, além de ter sido, também, o orador no banquete oferecido ao comandante e oficiais do 8º Regimento de Cavalaria em 26 de agosto de 1894.
         Euclides saiu de Campanha em 21 de maio de 1895, seguindo para Belém do Descalvado (hoje Descalvado), São Paulo, passando a residir na fazenda Trindade, que pertencia a seu pai, e a municipalidade campanhense deu a uma praça hoje não mais existente o nome do grande autor de Os Sertões.

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* Historiador e membro do IHGMG